Para Sergio Gabrielli, falta de investimento em refino nacional e dependência de importações de diesel vulnerabilizam o País diante do novo choque do petróleo e do fechamento do Estreito de Ormuz.
BRASÍLIA – O cenário de conflito no Irã e o fechamento do Estreito de Ormuz deflagraram um novo choque no mercado de petróleo, trazendo à tona a vulnerabilidade energética do Brasil. A avaliação é de José Sergio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras (2005-2012), que aponta a estagnação do parque de refino nacional como o principal gargalo para a segurança do País em momentos de crise internacional.
Segundo Gabrielli, o Brasil vive hoje o reflexo de decisões estratégicas interrompidas na última década. Ele argumenta que a suspensão de projetos de ampliação de refinarias — motivada, em sua visão, pelos desdobramentos da Operação Lava Jato e pela pressão de petrolíferas multinacionais — deixou o mercado interno exposto.
Dependência externa e preços
Atualmente, o País precisa importar entre 20% e 30% do diesel consumido internamente. “Sem capacidade de refino para atender a demanda, o Brasil fica à mercê das turbulências”, afirmou o ex-executivo em entrevista à Agência Brasil. Ele destaca que, embora as refinarias da Petrobras tenham operado com carga elevada (cerca de 93%) no último ano, o volume ainda é insuficiente.
O diagnóstico de Gabrielli aponta que o modelo atual favorece importadores privados que atuam de forma especulativa, trazendo combustível apenas quando os preços internos superam os internacionais, o que pressiona o custo para o consumidor final.
Geopolítica e Transição Energética
A crise no Oriente Médio deve redesenhar a geografia do comércio de óleo bruto. Com a instabilidade no Golfo Pérsico, espera-se que China e Índia busquem fornecedores alternativos, aumentando a relevância de países como Brasil, Canadá e Guiana. O óleo brasileiro, especificamente, possui características técnicas que se adaptam bem às refinarias chinesas.
Quanto ao futuro, Gabrielli ressalta que a alta dos preços dos combustíveis fósseis pode acelerar a transição energética a médio prazo, embora a substituição imediata seja inviável. Ele aposta no hidrogênio verde como o paradigma do futuro, mas alerta que a viabilidade econômica do setor, prevista para meados de 2035, depende de decisões políticas e investimentos estruturais que precisam começar agora.
O ex-dirigente lançou nesta semana o livro Economia do Hidrogênio: paradigma energético do futuro, editado pelo Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep).
Fonte: Agência Brasil