sábado, 17 de outubro de 2026
Capa Notícias

Inadmissível: Criança autista é enviada para casa em saco plástico e caso vira alvo de cobrança na Câmara Municipal de Alagoinhas.

Mãe denuncia negligência, maus-tratos e tentativa de abafamento por parte da Secretaria de Educação. No Legislativo, vereador repudia tentativa de culpabilizar estagiários precarizados e cobra prefeito. Por Paulo Pinheiro Alagoinhas, BA — O que era para ser um ambiente de acolhimento, inclusão e aprendizado transformou-se em um cenário de profunda humilhação para o pequeno Ezequiel […]

Avatar de Paulo Pinheiro
Por Paulo Pinheiro 14 de outubro de 2026 às 20:35 · 6 min de leitura

Mãe denuncia negligência, maus-tratos e tentativa de abafamento por parte da Secretaria de Educação. No Legislativo, vereador repudia tentativa de culpabilizar estagiários precarizados e cobra prefeito.

Por Paulo Pinheiro

Alagoinhas, BA — O que era para ser um ambiente de acolhimento, inclusão e aprendizado transformou-se em um cenário de profunda humilhação para o pequeno Ezequiel Almeida dos Santos, uma criança atípica (autista de nível 2 de suporte e não verbal). Aluno da recém-inaugurada Escola do Campo, na cidade de Alagoinhas, Ezequiel foi mandado de volta para casa pela direção da unidade de uma forma que chocou a comunidade: vestido dentro de um saco plástico.

A denúncia estarrecedora foi feita por sua mãe, Camila Almeida, durante o programa Jornal dos Municípios da rádio Digital FM (96.3), e agora ganha força e novos contornos com a repercussão no Legislativo Municipal, onde parlamentares apontam falhas estruturais e tentativa de repassar a culpa para a base mais fraca da hierarquia escolar.

O Caso

Segundo o relato da mãe, o caso ocorreu numa quinta-feira (24/09/26). A direção da unidade escolar já havia ligado em outras três ocasiões pedindo que a família fosse buscar o menino, alegando que ele havia feito necessidades fisiológicas e que não havia roupas ou fraldas na mochila para a troca. Em todas as vezes, a mãe encontrou o material limpo dentro dos pertences da criança ao chegar em casa.

O limite, no entanto, foi ultrapassado nesta última ocorrência. Sem o consentimento prévio, a escola enviou Ezequiel para casa em um carro da Secretaria de Educação.

“A escola simplesmente mandou meu filho vestido em um saco, em uma sacola… como se meu filho fosse um produto, um embrulho, um lixo, algo nojento que ela não quis mexer, não quis se sujar. E ao verificar a mochila, estava lá a fralda e a roupa do meu filho dentro”, relatou Camila, indignada, ressaltando que possui fotos e vídeos com data e horário que comprovam a denúncia.

Tentativa de Silenciamento

Buscando respostas, a mãe dirigiu-se à Secretaria de Educação (SEDUC) e à ouvidoria do município. No entanto, em vez de apoio, ela afirma ter recebido orientações para abafar o fato.

“O que eu ouvi lá dentro da SEDUC foi que eu deixasse que eles resolvessem essa situação lá internamente. Que eu não procurasse outros meios, porque senão eu iria expor a escola e a Secretaria de Educação. Então quer dizer que eu não posso expor a escola, mas meu filho pode ser exposto a essa situação de humilhação vexatória?”, questionou a mãe.

Além do trauma do episódio em si, Camila relata uma mudança drástica no comportamento do filho desde aquele dia. Ezequiel tem acordado de madrugada aos prantos e se mostra extremamente assustado com qualquer ruído, tapando os ouvidos e correndo — sinais claros de abalo psicológico severo.

A Ilusão da Inclusão

A denúncia ganhou reforço e eco com o apoio de Mayara Pinto, presidente da Associação dos Autistas de Alagoinhas, que apontou a falta de preparo dos profissionais da rede municipal para lidar com estudantes atípicos.

“Nós temos que desconstruir a ideia de que a pessoa com deficiência quer apenas festa. Nós saímos agora da Semana Municipal da Pessoa com Deficiência caladas, silenciadas, sem espaço sequer para expor nossa indignação. Nós precisamos primeiro dos direitos garantidos”, afirmou a presidente da associação.

A gravidade da situação do sistema de transporte escolar também foi exposta no programa de rádio. Segundo outra denúncia, os ônibus que levam as crianças para a Escola do Campo, transitando pela rodovia federal BR-101, viajam sem a presença de monitores, deixando o motorista como o único responsável por dirigir e supervisionar os alunos.

Repercussão na Câmara: Vereador repudia tentativa de culpar estagiários

A revolta popular rapidamente chegou à Câmara Municipal de Alagoinhas. Na sessão de terça-feira (13), o vereador Luciano Almeida utilizou a tribuna para cobrar providências urgentes da Secretaria Municipal de Educação.

O parlamentar revelou que, nos bastidores, a responsabilidade do episódio estaria sendo jogada nas costas de dois estagiários. Almeida criticou duramente essa postura e expôs a precarização dos contratos. Segundo ele, esses jovens recebem apenas R$ 350,00 mais vale-transporte para exercerem funções complexas de profissionais de apoio sem a preparação adequada.

“A escola tem diretor, vice-diretor, coordenador pedagógico, tem professores. Será que ninguém viu essa criança vestida com a sacola plástica? Não tem justificativa querer botar no colo a responsabilidade e querer culpabilizar, penalizar estagiários”, disparou o vereador.

Luciano Almeida cobrou a apuração de responsabilidades de toda a cadeia hierárquica, incluindo a direção escolar e a Secretaria de Educação, além de direcionar críticas ao prefeito Gustavo Carmo pela escassez crônica de profissionais habilitados na rede e por não convocar candidatos de processos seletivos para suprir o déficit de cuidadores e mediadores nas escolas.

Busca por Justiça

O caso rompeu o silêncio e mobiliza diversas frentes. Camila registrou um Boletim de Ocorrência na delegacia, enquadrando o episódio como maus-tratos, e formalizou denúncia no Ministério Público.

A atuação no órgão fiscalizador, inclusive, ganhará reforço institucional: os vereadores Luciano Almeida, Jaldice Nunes e Luma Menezes anunciaram que acompanharão a mãe de Ezequiel ao Ministério Público para garantir que a investigação ocorra de maneira rigorosa. A Associação de Autistas também orientou a família a acionar o Conselho Tutelar e os Conselhos Municipais de Educação e dos Direitos da Criança.

A família de Ezequiel agora aguarda que a justiça seja feita. A comunidade de Alagoinhas cobra ações definitivas para garantir que a inclusão seja uma prática real nas escolas públicas, e não apenas peças de propaganda, assegurando que nenhuma criança volte a ser tratada como um mero descarte.

Fontes: Programa Jornal dos Municípios, Câmara Municipal de Alagoinhas.

Publicidade Espaço Publicitário (728x90)

Descubra mais sobre O Instante

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo