ESPECIAL: Do “bunker” de charutos ao rombo de R$ 41 bilhões: o colapso do Banco Master traga a República.
Liquidação atinge fintech Will Bank em 2026 e eleva fatura do FGC para nível histórico. Investigações da PF revelam esquema com créditos de carbono em terras públicas e reuniões de ministros do STF e do Planalto com banqueiro investigado. Por Paulo Pinheiro. Alagoinhas, 31/01/26. O que começou como uma investigação sobre liquidez bancária se transformou […]
Liquidação atinge fintech Will Bank em 2026 e eleva fatura do FGC para nível histórico. Investigações da PF revelam esquema com créditos de carbono em terras públicas e reuniões de ministros do STF e do Planalto com banqueiro investigado.
Por Paulo Pinheiro. Alagoinhas, 31/01/26.
O que começou como uma investigação sobre liquidez bancária se transformou no que autoridades já classificam como a maior fraude financeira da história recente do país. Em janeiro de 2026, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Will Bank, fintech controlada pelo Banco Master, ampliando o rombo estimado nas contas do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para cerca de R$ 41 bilhões.
O colapso do império financeiro de Daniel Vorcaro, preso pela Polícia Federal (PF) ao tentar embarcar para o exterior em jato particular,, expôs uma engrenagem complexa que une fraudes contábeis em escala industrial a uma rede de proteção política que alcança as mais altas esferas da República.
A Queda do Will Bank e o Recorde do FGC
A liquidação do Will Bank, ocorrida em 21 de janeiro de 2026, foi o golpe de misericórdia nas tentativas de conter a crise sistêmica iniciada com a quebra do Banco Master em novembro de 2025. A fintech, que possuía cerca de R$ 6,5 bilhões em depósitos a prazo, teve sua insolvência decretada após calote em pagamentos à Mastercard e a constatação de patrimônio líquido negativo de R$ 76,1 milhões.
Com a inclusão do Will Bank na massa falida, o FGC enfrenta o maior resgate de sua história. A entidade já iniciou o processo de ressarcimento de correntistas e investidores dentro do limite de R$ 250 mil por CPF, enquanto credores institucionais e fundos de previdência enfrentam perdas massivas que superam o teto de garantia.
A “Fábrica” de Dinheiro: Carbono e Terras Públicas

Novos documentos obtidos pela imprensa e anexados ao inquérito revelam que a fraude do Master ia muito além dos CDBs com taxas irreais. A família Vorcaro é suspeita de inflar o balanço da instituição utilizando créditos de carbono fictícios.
Segundo investigações jornalísticas baseadas em apurações da CVM e da PF:
- O Esquema: Empresas de fachada ligadas a Henrique Vorcaro, pai do banqueiro, simulavam possuir bilhões de reais em ativos ambientais.
- A Origem: Os supostos créditos de carbono seriam gerados em uma área de grilagem e disputa fundiária no município de Apuí (AM), sobreposta a um assentamento do INCRA, tornando os ativos nulos.
- O Mecanismo: Esses ativos “podres” eram injetados em fundos de investimento geridos pela REAG Investimentos — também liquidada — para simular solidez financeira e permitir a emissão de mais dívida no mercado.
Conexões Perigosas: O STF e o Planalto

O escândalo financeiro ganhou contornos de crise institucional com a revelação de encontros fora da agenda oficial entre o banqueiro e autoridades máximas da República.
Reportagens recentes indicam que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, teria frequentado a residência de Daniel Vorcaro em, pelo menos, duas ocasiões. Os encontros teriam ocorrido em um espaço reservado da mansão, descrito como um “bunker” com estrutura para consumo de charutos e vinhos caros.
- Conflito de Interesses: As visitas teriam ocorrido enquanto o escritório de advocacia da esposa de Moraes mantinha contrato vigente com o Banco Master.
- O Encontro com o BRB: Em uma das ocasiões, no primeiro semestre de 2025, Moraes teria sido apresentado a Paulo Henrique Costa, então presidente do Banco de Brasília (BRB), momento em que o banco estatal negociava um aporte bilionário para salvar o Master. O ministro nega a reunião com o executivo do BRB e classifica as notícias como ataques criminosos.
Além do Judiciário, o Executivo também foi tragado para o centro da crise. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu Vorcaro no Palácio do Planalto em dezembro de 2024, em uma reunião fora da agenda intermediada pelo ex-ministro Guido Mantega, na época, o mercado já emitia alertas sobre a insolvência do banco.

A Sangria do BRB e os “Papéis Podres”
As investigações apontam que o Banco de Brasília (BRB) atuou como uma “tábua de salvação” para o esquema. O banco público injetou cerca de R$ 16,7 bilhões no Master entre 2024 e 2025, adquirindo carteiras de crédito que o Ministério Público Federal (MPF) classifica como fraudulentas ou sem lastro (como a carteira “Tirreno”, composta por dívidas fictícias de servidores).
Em um movimento classificado como doloso pelos investigadores, a diretoria do BRB abriu mão de uma cláusula que permitiria o ressarcimento imediato de R$ 6,7 bilhões ao descobrir irregularidades, optando por um parcelamento que manteve o dinheiro no caixa de Vorcaro.
O Cerco se Fecha
O inquérito, agora sob relatoria do ministro Dias Toffoli no STF, corre sob sigilo. A Polícia Federal analisa “terabytes” de dados apreendidos nos celulares de Vorcaro e de seus familiares, incluindo o cunhado Fabiano Zetel, apontado como operador financeiro do esquema.
Enquanto o mercado financeiro absorve o impacto da liquidação do Will Bank e do Master, Brasília vive a expectativa de uma delação premiada que pode implicar governadores, parlamentares e membros do Judiciário que, direta ou indiretamente, “fumaram os charutos” no bunker de Daniel Vorcaro.
O Instante.