Queda de Jerí no Peru trava eixo comercial com o Brasil e põe investimentos em xeque.
Por Redação | 18 de fevereiro de 2026 LIMA – O Peru confirmou nesta quarta-feira sua reputação de “triturador de presidentes”. Em uma sessão marcada por trocas de insultos e forte pressão popular, o Congresso peruano aprovou a destituição de José Jerí por “incapacidade moral permanente”. Jerí, que ocupava a presidência de forma interina desde […]
Por Redação | 18 de fevereiro de 2026
LIMA – O Peru confirmou nesta quarta-feira sua reputação de “triturador de presidentes”. Em uma sessão marcada por trocas de insultos e forte pressão popular, o Congresso peruano aprovou a destituição de José Jerí por “incapacidade moral permanente”. Jerí, que ocupava a presidência de forma interina desde outubro de 2025, sucumbiu a um escândalo de corrupção envolvendo lobby chinês, apenas dois meses antes das eleições gerais.
A decisão foi tomada por 82 votos a favor, 25 contra e 13 abstenções. Com a queda de Jerí, o país vizinho se prepara para empossar seu nono mandatário em uma década, aprofundando uma crise institucional que agora transborda para a economia regional, afetando diretamente interesses brasileiros.
O estopim: O “Chifagate”
O governo de Jerí desmoronou em velocidade recorde após a divulgação de áudios e vídeos de reuniões não declaradas com o empresário e lobista Zhu Wong. Os encontros ocorreram em um tradicional restaurante de comida chinesa em Lima — o que rendeu ao escândalo o apelido de “Chifagate”.
Segundo as investigações do Ministério Público, o esquema envolveria o favorecimento de empresas asiáticas em licitações de infraestrutura no porto de Chancay em troca de financiamento ilícito para aliados de Jerí. O episódio reacendeu o alerta sobre a agressiva expansão do capital chinês na região, muitas vezes em detrimento de empresas sul-americanas.
Um carrossel de crises
A instabilidade no Peru é crônica. Desde 2016, o país viu a queda de sucessivos líderes, de Pedro Pablo Kuczynski a Dina Boluarte. O mecanismo de “vacância por incapacidade moral” tornou-se uma ferramenta política frequente do Legislativo, gerando um cenário de “transição permanente” que dificulta acordos de longo prazo.
Impacto direto no Brasil
Para o mercado brasileiro, a queda de Jerí não é apenas um fato político externo, mas um entrave logístico e comercial. O Peru consolidou-se como a principal porta de saída do Brasil para o Pacífico, e a paralisia em Lima atinge pontos nevrálgicos:
- Infraestrutura e Concessões: Empresas brasileiras de engenharia com contratos ativos no Peru enfrentam agora o risco de revisões contratuais e “pente-fino” administrativo por parte do novo governo interino.
- Setor Automotivo: O Peru é um dos maiores compradores de ônibus e caminhões produzidos no Brasil (com destaque para a Marcopolo e Volkswagen). A desvalorização do Sol peruano e a incerteza política travam a renovação de frotas.
- Varejo e Consumo: Marcas como Natura e Alpargatas monitoram a retração do consumo interno peruano, que tende a cair drasticamente durante vácuos de poder.
- O Corredor Bioceânico: A manutenção de rodovias que ligam o Acre aos portos peruanos pode sofrer atrasos orçamentários, prejudicando o escoamento da safra brasileira para a Ásia.
O que acontece agora?
De acordo com a Constituição, o novo presidente do Congresso assumirá o comando do país nas próximas 24 horas. Sua missão será técnica e emergencial: garantir a realização das eleições de abril e acalmar os mercados. No entanto, para os exportadores e investidores brasileiros, o sinal permanece em amarelo.
A crise em Lima prova que, no Peru, a única constante é a incerteza — um ingrediente indigesto para a integração sul-americana.